70%
70%
Sem surpresa

Sendo inegável que “Os Oito Odiados” é mais um brilhante exercício de estilo e realização de Quentin Tarantino, não se pode deixar de assinalar a falta de ambição, ação e inconsistência que o atravessam e o tornam num dos filmes menores na carreira do realizador.

  • Sem surpresa
    7
  • User Ratings (0 Votes)
    0

Não será excessivo responsabilizar Quentin Tarantino pelo início da minha paixão por Cinema. Os seus brilhantes “Cães Danados”” e “Pulp Fiction”, de 1992 e 1994, respetivamente, foram uma injeção de originalidade e ousadia, que ia perfeitamente de encontro às aspirações de uma geração que viveu a sua adolescência nos anos 90. Desafiando convenções e criando um estilo próprio e absolutamente “cool”, era difícil não gostar dele. É por isso com grande emoção e expectativa que ainda hoje vejo cada um dos novos filmes do realizador.

“Os Oito Odiados” chega-nos como uma história de tensão, com contornos raciais e classicistas, que se passa quase inteiramente no cenário de uma pousada, em Wyoming. Este fato, por si só, não é desagradável, remetendo-nos até para os fantásticos clássicos, “Lifeboat” (1944), de Alfred Hitchcock, ou “Doze Homens em Fúria” (1957), de Sidney Lumet, mas em modo Western e muito gore. O problema é que é quase impossível replicar a mestria de suspense daqueles grandes cineastas, sendo lamentável constatar que Tarantino não usa esta ferramenta cinematográfica com a perfeição a que nos tem habituado.

O que é evidente, desde logo, é que este tipo de filme, em que toda ação se passa num único cenário, não deveria ter três horas de duração. Por mais que as personagens sejam densas e os diálogos inteligentes se intercalem comicamente com rajadas de sangue e violência gráfica, três horas é demasiado tempo para o enredo. “Os Oito Odiados” não deixa de ser divertido e estiloso – Tarantino não consegue fazer nada menos do que isso – mas nunca é tão substancial e dinâmico quanto os melhores trabalhos do realizador. E basta-nos recordarmos o já referido “Reservoir Dogs”, que conta a mesma história de desconfiança, traição e niilismo, em quase metade do tempo! Contestamos apenas isto, porque tudo o resto vai de encontro às nossas expectativas, mas a verdade é que esta questão se torna, com o decorrer dos minutos, quase intolerável.

© FilmColony

© FilmColony

Apontado o erro essencial, não deixamos de apreciar a estilística superior de Tarantino, com os seus capítulos narrativos, os seus flashbacks habituais, os twists inteligentes, os momentos cómicos e os longos diálogos, que quase nos arrepiam e nos fazem querer decorar cada palavra.

Também as performances são fortes e impressionantes. O elenco, de excelência, estava claramente comprometido com o projeto. Tarantino faz aqui uma espécie de “family reunion” com várias estrelas dos seus antigos êxitos, como Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Tim Roth, Michael Madsen e Walton Goggins. O resultado é fabuloso. A química na tela é inquestionável e o prazer dos atores em trabalharem com o mestre Tarantino é evidente.

Ennio Morricone oferece-nos uma banda sonora envolvente e insidiosa. E quem melhor que o compositor que já trabalhou com Sergio Leone para acompanhar a trama de um western? Também nisto, Tarantino não deixa nada ao acaso e os seus filmes pautam-se sempre pela excelência do conjunto sonoro.

Sendo inegável que “Os Oito Odiados” é mais um brilhante exercício de estilo e realização de Quentin Tarantino, não se pode deixar de assinalar a falta de ambição, ação e inconsistência que o atravessam e o tornam num dos filmes menores na carreira do realizador.

loading...
This part can be inserted into the end of the html document in order to avoid delays in loading the main content of your site

About Author

Ana Semedo

Comments are closed.

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien